quarta-feira, 11 de maio de 2011

O Majestoso não pode morrer

Bruno Ribeiro, para o Correio Popular de 11 de maio de 2011

Senhoras e senhores, esta coluna é o altar imaginário da Pátria, onde acendo minha vela de sete dias ao povo brasileiro. Hoje acenderei aos estádios de futebol, ícones intocáveis da nossa cultura.
O Maracanã é nosso Coliseu. Tem, para o Brasil, a mesma importância histórica e cultural que a grande arena para a Itália. E, no entanto, sem qualquer reação popular, o Maracanã está sendo posto abaixo. O governo do Rio de Janeiro diz que o estádio será reformado para a Copa do Mundo, mas a verdade é que está sendo reduzido a pó feito o Muro de Berlim - só que sem a participação do povo (e às suas costas).
O templo do futebol está sendo demolido para que outro estádio seja levantado em seu lugar. Não importa que a nova construção tenha o seu mesmo nome, o sagrado terá sofrido uma trágica profanação. E tal crime é cometido à vista de todos.
É inaceitável que o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) tenha autorizado a derrubada da cobertura do Maracanã, tão famosa quanto o Cristo Redentorno alto do Corcovado. O arquiteto Nestor Goulart Filho, que participou do tombamento do estádio, em 2000 disse que "retirar a marquise é como cortar a cabeça de uma pessoa".
Sem a marquise original, o Maracanã ganhará um teto de lona que o deixará parecido com os estádios europeus. Perderá, portanto, suas particularidades de concepção e técnica - audaciosas para a época em que foi construído. A estrutura do novo estádio servirá, ao que tudo indica, apenas à elite que pode pagar por ingressos a preços exorbitantes. É o povo, mais uma vez, coocado para fora da festa.
Até que ponto o capitalismo, em nome de uma suposta modernidade, tem o direito de passar seus tratores sobre um bem tombado e extirpar, como se fosse um câncer, um patrimônio que pertence não só aos cariocas, mas a todo o povo brasileiro.
***
Em Campinas, vivemos situação semelhante. Todos sabem que eu sou bugrino desde que cheguei aqui (...) Mas o fato de ser Guarani não me impede de receber com tristeza a notícia de que o estádio da Ponte Preta foi vendido e será demolido.
Os interessados neste descalabro garantem que a fachada do Moisés Lucarelli será poupada, ainda que todo o resto seja derrubado para dar lugar a um condomínio.
"Em respeito ao torcedor e à memória ponte-pretana, a fachada será mantida e o Majestoso ficará eternizado". escreveu a assessoria de imprensa da Ponte Preta no site oficial do clube. A declaração é cínica e não se sustenta.
Que respeito é este que entrega o maior patrimônio do clube à especulação imobiliária?
O presidente da Ponte, Sérgio Carnielli, diz ver com preocupação o processo de tombamento do estádio - que está sendo analisado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Artístico e Cultural de Campinas (CONDEPACC). Caso seja reconhecido como patrimônio histórico de Campinas (torço por isto!), o Majestoso não poderá ser vendido ou demolido. A justificativa do dirigente ponte-pretano é de que o dinheiro obtido com a venda permitiria a construção de outro estádio - o Arena Ponte Preta - em outro local, muito maior e mais moderno. E para quê?
Com todo respeito à Ponte, mas o clube não precisa de um estádio maior e mais moderno. O mesmo vale para o Guarani. São dois clubes tradicionais, mas não têm conseguindo sequer lotar as arquibancadas e solucionar problemas básicos com suas folhas de pagamento. Trata-se de uma ambição incompatível com a realidade.
Há lugares de esquecimento, territórios efêmeros (os shoppings, por exempo). E há lugares de memória, territórios de permanência. O Majestoso está neste segundo grupo. É um templo onde se cultua a história. É por isso que o Moisés Lucarelli não pode morrer. É lá que está asentado o axé da trajetória épica do clube. É lá que mora o espectro da Ponte Preta - que Renato Pompeu descreveu como "uma preta velha e gorda que sobrevoa as ruas de Campinas feito uma grande nuvem leitosa".
Sou Guarani, mas o MOisés Lucarelli também é meu. Os meus domingos de dérbi ainda estão ali, suspensos no ar, vibrando nas arquibancadas desertas. O estádio nasceu das mãos do povo: tijolo a tijolo, operário a operário, gol a gol. Alegria. Derrota. Sangue. Lágrimas. Apito do trem. Ele sempre existiusobo céu de Campinas. Ele dá sentido ao dérbi e me faz mais bugrino.
O Majestoso é feito de matéria e sonho, porque Dicá ainda está lá, cobrando faltas com sua bola de éter. Porque Odirlei continua correndo pela esquerda, na asa do vento. Porque o goleiro Carlos tem seu vôo congelado debaixo das traves vazias. E porque Chicão segue fazendo seus gols, repetidamente, nas madrugadas insones do estádio.
Quando penso no Majestoso, não vejo rivalidade. Sinto apenas o aroma rasteiro da grama que inebria e preenche o meu ser com a própria alma da cidade.

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